Certo dia, os dois filhos do rei de Tróia resolveram fazer uma visita de cortesia a um dos homens mais poderosos da época: Menelau, rei de Esparta. Chegando lá foram recebidos como reis (até aí tudo bem, pois eram príncipes). Tiveram uma recepção calorosa, com eventos, jantares, apresentações à sociedade espartana, e farras daquelas de perder a caixa-preta.
O único problema é que Menelau era casado com Helena, uma baita loira que, além de um monumento de mulher, era da pá virada. Mas como era a mulher do rei, ninguém mexia com ela. Ninguém até chegarem os troianos, pois o mais novo, que se chamava Páris, a primeira coisa que fez dar aquela espiada de cima a baixo que deixou a moça nua até nos olhos. E o pior: foi prontamente correspondido. O destino armava ali uma encrenca de proporções homéricas.
Quando se cruzavam nos corredores do palácio, Páris que era um sujeito muito galante, abordava Helena com sutileza:
_ Mas que saúde, hein...
Ao ouvir isso, Helena, que percebia seu sistema endócrino em ebulição, retrucava animada:
_ Mas o que é isso? Eu sou mulher casada!
E Páris, com a elegância de sempre:
_ Casado não é capado, ora essa.
Ao que Helena, com um sorriso oculto na alma, replicava:
_ Olha o respeito!
E a coisa caminhou de tal maneira que logo estavam os dois botando a juripoca pra piar pelos recônditos do palácio. A lambança pegou fogo de tal maneira, que os amantes traçaram planos e acabaram fazendo a maior presepada com Menelau. No dia da partida dos Troianos, Helena arrumou uma matula e se pirulitou junto com Páris. Claro que o tempo fechou quando o rei acordou e não viu a mulher.
Menelau, que era corno mas não era manso, ficou uma arara. Queria ir pro pau a todo custo. E reivindicou um antigo tratado grego que obrigava às cidades da Hélade a se ajudarem no caso de ofensa a qualquer uma delas. Os reis todos tentaram abafar o problema, “ih, mulher tem em todo canto”, “mas era uma vadia”, “não vale a pena”, e outras argumentações igualmente argutas. Mas Menelau não queria conversa e aliou-se a seu irmão Agamenom, uma espécie de Bornhausen da época, que nutria um desejo antigo de passar com o trator por cima de Tróia, porque era uma cidade muito rica, que começava a incomodar com sua prosperidade, que proporcionaria um butim espetacular e também porque ele queria se livrar daquela raça por uns 300 anos. As sacanagens de Helena e Páris eram um pretexto incontestável para um sujeito com o caráter notoriamente duvidoso como ele posar de líder moral e, por conseqüência, chefe militar, que acabou se tornando.
A invasão e a guerra dos gregos contra Tróia durou 11 anos. Tróia foi arrasada. Milhares de mortos dos dois lados. Mesmo vitoriosos, muitos gregos perderam o rumo e as viagens de volta para casa duraram mais 20 anos. Uma série de tragédias se abateu sobre vários dos guerreiros gregos. Agamenon, por exemplo, foi morto pela própria esposa e o amante dela, assim que pisou de volta em casa. Ulisses teve que promover uma chacina contra as dezenas de pretendentes de sua esposa, que lhe haviam invadido o lar.
No fim das contas a guerra e seus desdobramentos serviram de tema para Homero escrever a Ilíada e a Odisséia, dois dos grandes fundamentos da cultura ocidental. Ou seja, se não fosse a traição de Helena, esses fundamentos não existiram. Sem eles não existiria a cultura grega antiga. Sem a cultura grega, o que seria do Império Romano? Sem Império Romano não haveria cristianismo. Sem cristianismo não haveria Idade Média, Igreja, Absolutismo, Iluminismo nem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. E sem Direitos Humanos este texto dificilmente versaria sobre questões espirituais ou culturais. Seria mais provavelmente sobre a melhor estratégia de invadir e saquear o apartamento do vizinho e, em caso de sucesso, brindar o resultado da empreitada em seu crânio.
Assim, o que salva o crânio desse vizinho é, em última instância, o aplique com que Helena adornou a testa de Menelau. Não fosse o furor uterino da bela rainha de Esparta e o nosso vizinho estaria agora com as horas contadas.
Todo o universo que conhecemos como “Civilização Ocidental”, portanto, tem suas raízes num Chifre. Procedendo desta maneira, ao sabor da natureza, Helena forjou as bases do mundo ocidental e elevou o Chifre à condição de motor da história e de alicerce da cultura moderna.
Quarta-feira, Novembro 08, 2006
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