Quinta-feira, Novembro 30, 2006

Livros, discos e sei lá mais o quê # 03


Sei lá mais o quê indicado: Pink Flamingos

O filme Pink Flamingos (1972), de John Waters, é uma produção cuja descrição não precisa ir muito além de seu subtítulo: um exercício de mau-gosto. Pode-se dizer que esta película inaugurou a concepção de cinema underground nos EUA e elevou o status dos midnight movies ao patamar da contestação política. O filme narra a insólita competição entre a dragqueen Divine e o casal alucinado Connie e Raymond Marble - que sequestra jovens moças para estuprá-las, engravidá-las e vender seus filhos para casais de lésbicas - na busca pelo título de "pessoa mais sórdida do mundo". Vale a pena conferir a escatologia de Pink Flamingos, mas evite fazê-lo enquanto come, pois a película é repleta de cenas capazes de subtrair qualquer apetite. Ah, devo destacar a trilha sonora do filme, muito legal mesmo, repleta de rockzinhos cults apresentados pelos The Centurions, The Trashmen, Patti Page e Little Richard. Faça você também esse exercício de mau-gosto!

Domingo, Novembro 26, 2006

Toxioplasmose - Atenção donos de gatos!

Interessante artigo na Piauí, revista recém-lançada pelo J. Moreira Salles. Recomendo.

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Livros Discos e sei lá mais o quê (# 02)


Disco indicado: Vo Bate Pa Tu
Primeiro disco do grupo "Baiano e os Novos Caetanos", Vo Bate Pa Tu (1974) é o resultado da inusitada união da dupla Chico Anysio/Arnould Rodrigues com o grupo Novos Baianos - de Moraes, Baby, Pepeu & cia. Pra quem curte uma MPB diferente e bem humorada (coisa rara nas composições desse período), este disquinho é mais do que indicado, pois além dos excelentes arranjos executados pela turma dos Novos Baianos, cada faixa é marcada pelo humor cáustico da dupla de compositores. A faxia de maior sucesso, e que dá nome ao álbum, é, obviamente, "Vo bate pa tu", interpretada por alguns como um protesto dissimulado contra a ditadura - já que aborda o tema da deduração. Não concordo muito com esta perspectiva e, a julgar pelo que dizem as más línguas sobre o histórico de Chico Anysio, tenho razões para crer que existem muito mais coisas pra se bater pros outros além do comunismo subversivo...Destaque para as faixas "Véio Zuza", "Cidadão da Mata" e "Urubu tá com Raiva do Boi", cujo conteúdo poético encerra, desde já, esta coluna:

Urubu tá com raiva do boi
E eu já sei que ele tem razão
É que o urubu tá querendo comer
Mas o boi não quer morrer
Não tem alimentação

O mosquito é engolido pelo sapo,
O sapo a cobra lhe devora.
Mas o urubu não pode devorar o boi:
Todo dia chora, todo dia chora.

Gavião quer engolir a socó,
Socó pega o peixe e dáo fora.
Mas o urubu não pode devorar o boi:
Todo dia chora, todo dia chora.

Quinta-feira, Novembro 23, 2006

Livros, discos e sei lá mais o quê (#01)

Meus caros amigos, "Livros, discos e sei lá mais o quê" é a mais nova seção deste blog. Nela você encontrará algumas sugestões para um bom exercício dos sentidos, especialmente se você não é cego ou surdo, sempre acompanhadas de uma pequena resenha sobre a obra literária, musical, cinematográfica ou sei lá mais o quê. Enfim, é isso.

Livro indicado: Bom Dia para os Defuntos (Redoble por Rancas)
Publicado no Brasil sob o título Bom dia para os defuntos, o livro do escritor peruano Manuel Scorza Redoble por Rancas representa, sem dúvida alguma, uma das mais densas e prodigiosas obras da literatura latinoamericana. O livro narra a saga da revolta camponesa no Peru, em 1960, contra uma empresa mineradora norteamericana - Cerro del Pasco Corporation - que cercara não só suas terras, mas sobretudo o exercício de sua própria condição humana. Destaque especial para o primeiro capítulo, O sol do Dr. Montenegro, de uma perspicácia e sofisticação tão grandes que, passando os olhos pelas letras que o compõe, esquecemos tratar-se de uma bárbara e persistente história real. Devo acrescentar que este livro é o primeiro de cinco romances independentes, porém interligados, que compõem a "Guerra Silenciosa". Assim temos também "Garambono, o Invisível"; "O Cavaleiro Insone"; "Cantar de Agapito Robles " e a "Tumba do Relâmpago", além do indicado "Bom Dia para os Defuntos", cujo pequeno trecho abaixo encerra a coluna de hoje:
"Os arruaceiros, os namorados e os bêbados se desgrudaram das primeiras escuridões para admirá-la. 'É o sol do doutor!', sussurravam exaltados. No dia seguinte, cedo, os comerciantes da praça desgastaram-na com olhares temerosos. 'É o sol do doutor', diziam emocionados. Gravemente instruídos pelo diretor da escola - 'Espero que nenhuma imprudência leve seus pais à cadeia!' -, os escolares admiraram-na ao meio-dia: a moeda tomava sol sobre as mesmas descoloridas folhas de eucalipto. Por volta das quatro, um garotinho de oito anos se atreveu a cutucá-la com uma varinha: nessa fronteira estacou a coragem da província. Ninguém tornou a tocá-la nos doze meses seguintes".

Frases Fortes com Efeitos Irônicos # 02



"Não quero dinheiro, eu só quero amar, só quero amar, só quero amar"
(Bill Gates, 2003)

DOBRADINHAS INFELIZES #01



"Mente sã...

... corpo são".

Terça-feira, Novembro 21, 2006

Frases Fortes com Efeitos Irônicos # 01





"Deus escreve certo por linhas tortas"
(Osama Bin Laden, 11/09/2001)
Pequena Nota Filosófica de uma Tarde de Terça


"O bolso vazio é a oficina do Diabo"

Quinta-feira, Novembro 16, 2006

O suicídio da grande imprensa, por Luis Nassif

Segue link para a ótima entrevista de Luis Nassif, "Grande imprensa cometeu suicídio nestas eleições", ao site Vermelho, do PC do B.

Terça-feira, Novembro 14, 2006

Carta de um leitor ao Ombudsman da Folha

Depois de ver a manchete de hoje, ilustrada por fotografias, uma do Lula descansando numa praia, outra de um passageiro dormindo no aeroporto; depois de ver uma fotografia do Lula vestindo um chapeu de vaqueiro nordestino e a legenda da fotografia dizendo que Lula estava usando chapéu de cangaceiro e, em mais de um mês, nem sequer uma singela nota de "Erramos" e todo o jogo de manchetes do período eleitoral em que manchetes negativas nem sempre coincidiam com o teor da matéria; depois de ler diversas matérias em que repórteres e articulistas adaptavam seus artigos ao gosto de seus chefes e dos donos dos jornais, a servidão voluntária não poupa jornalistas só por serem jornalistas, também eles têm suas chefias e seus patrões para agradar ou servir, depois de ver que pessoas independentes acabam por sair ou ser mandadas embora do jornal, assim como foi com o Villas-Boas Correa, a Marilene Felinto, outros positivos e críticos sem parcialidade como o Nassif, temo que o jornal que comecei a ler quando da reforma feita pelo Claudio Abramo, que transformou um jornaleco de nada em uma potência dentro da imprensa brasileira, um orgão vivo onde a polêmica era tanto interna como externa, com "paus" homéricos entre os seus próprios jornalistas, o que de fato oxigenava tanto a Folha como os demais orgãos, que têm ainda os mesmos donos de quando era ruim, como quando foi bom e agora quando esta voltando a ser ruim, o que prova que os donos não são, nem foram responsáveis pelo período bom, a não ser por permitirem que o período bom ocorresse, mas com a mudança de direção do sr. Luis para o sr. Otávio a interferência tem aumentado, ainda mais quando este último escreve artigo elogioso ao Carlos Lacerda, figura nefasta do jornalismo brasileiro, elogiada pelos oportunistas de plantão, e que faz com que seus comandados, no intuito de agradá-lo, tentem transformar-se cada um num "lacerdinha da casa", temo, dizia eu que a Folha que leio e assino, como nome da minha esposa, a tantos e tantos anos esteja a caminho da vejificação. Desculpe-me o desabafo, sei que o ombudsman nada têm a ver com isso, mas têm sido um exercício terrível ler a nossa imprensa hoje em dia, talvez por isso a Folha que já ultrapassou o 1 milhão de exemplares, faz das tripas coração para editar pouco mais de 400 mil, minha própria esposa não a lê mais e pede-me para recortar algum artigo bom para que ela leia, passo dias sem recortar um único artigo, e a cada seis meses briga comigo pois não quer renovar a assinatura, que não quer mais a assinatura no seu nome, logo ela que já ganhou prêmio da Folha por ser das mais antigas assinantes. A imprensa brasileira anda tão ruim que deveria vender na banca picado, como estes vendedores de cigarros da rua que vendem um a um, pegaríamos a política deste, a cultura do outro, noticias de cidade de um terceiro, economia do outro, quem sabe assim poderíamos ter um jornal razoável.

Sergio Alexandre Antunes de Carvalho

P.S. A coluna sobre os positivos e negativos das candidaturas não convenceu-me de modo algum, acho que a matéria é muito subjetiva para se fazer estatisticas, há artigos que têm tanto critica como matéria neutra, há manchetes negativas como conteúdos neutros, há manchetes neutras como conteúdo negativo. Há ainda um pernicioso jogo jornalístico que acho terrível, ampliar e ecoar frases ou comentários de alguém para transformar em notícia e sensacionalismo, coisas que nada são, como exemplo temos hoje a fala de brincadeira de Lembo dizendo que local de velhinho é no cemitério, uma gag, um wit que não deveria causar nada, vai um bobo repórter entrevistar dois idosos para causar polêmica. Muitas das brigas políticas que se vêm nos jornais são criadas deste modo, alguém fala uma coisa sem importância para um público mínimo, o jornalista vai correndo levar para que o outro lado comente e assim criar confusão. Jornalistas são muito bons para levantar o caráter corporativo dos outros, para eles mesmos, críticas, só nas mesas dos botecos onde se reunem, aí sim descem o "pau" em seus pares sem piedade, mas nas páginas dos jornais, silencio absoluto. Assistimos o processo de canonização dos donos da imprensa, primeiro foi o sr. Julinho Mesquita, depois foi o "jornalista" Roberto Marinho, agora temos o sr. Luis Frias, todos santos.

(Texto de Sergio Alexandre Antunes de Carvalho)
Os Comunistas chegaram!!!

Não tentem se fazer de mortos! Pela primeira vez em sua história os comunistas assumem a presidência do Brasil!!!

Sexta-feira, Novembro 10, 2006

Um Vício Global

Pelas eliminatórias latino-americanas da Copa do Mundo de 2006, jogavam em uma tarde de domingo, em La Paz, na Bolívia, a seleção da casa e a seleção brasileira. Na cabine de transmissão, Galvão Bueno, Falcão, Casagrande e Arnaldo Cezar Coelho iniciavam um estranho diálogo...

Casagrande: dã, pessoal, isso tá me cheirando bem...
Falcão: então casa uma grande aí.
Arnaldo: porra Casão, a regra é clara! quem bate fica por último!
Galvão: a rrrrrrrrrrrrrapa é minha!

- Diálogo patrocinado pela Telemar: sempre o melhor cartão!
- Apoio da Casa da Moeda: a nota de dez é dez!
- Para congestão nasal use SORINE.
(“em caso de persistência, consulte seu médico ou mude de traficante”)
- Patrocínio PancAir - Aerolinhas Bolivianas: “use o cartão e guarde sua nota” (wisky extra/mais banheiros).
Cursos de Pós-graduação Imaginários
e
Bibliografias Absolutamente Fictícias

I) “A Aventura Norte-Americana”

Bibliografia:

a) Do Sax ao Escafandro: a saga miraculosa de New Orleans
Poorman, Johnigga. WeetPress, 2005.

b) Escolhidos a Dedo: uma etnografia da prostituição masculina em São Francisco
Bigger, Dick. HolePress, 1986.

c) Complexo de Titanic: o mito do Mayflower e o futuro estadunidense
White, Killinger. Found&Fathers, 1765.

d) O Desafio do Xadrez Novaiorquino: como jogar sem as Torres
Targett, Peter O. N. ShithappensPress, 2001.

e) Recordações de Buenos Aires: o diário de um americano na capital do Brasil
Winsdon, Charles Withouter. Simpson’s University, 1952.

f) Meu Chapéu de Cowboy: guia prático para churrascos em casa alheia
Fooker, Anthony Eatall. Nativedied, 1805.

II) “A Descoberta de São Paulo”

Bibliografia

a) Garoa Hobbesiana: considerações sobre os paulistas de acampamento
Maluf, Salim Lalau Jr. Itaquaquecetuba, 1998.

b) A Volta dos que Não Foram: o guia turístico definitivo de São Paulo
Dedois, Marcelo. Pindamonhangaba, 2002.

c) Não vi e não gostei: memórias de minha vida em São Paulo
Lyra, Diogo. Rio de Janeiro, 2004.

d) Paulicéia Desvairada: a superioridade paulista em relação ao carioca
Supla, Suplicynho. Araraquara, 1987.

e) Faça a Coisa Certa: como alugar um apê no Rio sem sair de São Paulo
Huck, Narigano. Congonnhas, 1996.

f) Simplesmente Sampa: dez dicas para evitar o suicídio
Veloso, Paulistanno. Cubatão, 1980.

III) “Nosotros Hermanos: Argentina Revisitada”

Bibliografia:

a) O Mapa-Mundi de Buenos Aires: os argentinos por eles mesmos
Pelón, Miralo. Cagones Editorales, 1928.

b) O Brilho de uma Nação: a carreira de Diego Armando Maradona
Mínapa, Alejandro Metosí. Ediciones Canudos, 1994.

c) Vim, vi e venci: Malvinas para inglês ver
Culodolores, Ernesto. Falkland Press, 1981.

d) A Fábula do KY: auto-ajuda para argentinos
Ribeiro, Lair. Ed. Buracos Calientes, 2003.

e) Era uma vez um verão: o turismo portenho em Búzios
Gay, Ser. Saquaremabooks, 1999.

Quinta-feira, Novembro 09, 2006

A Mídia Má e a Má Mídia - uma provocação pública a um público conhecido

"Aidim am ahe ama idima
Amidi ama eh a mami dia"
(Mantra de rito funeral dos habitantes de Bukitiingi, cidade na Sumatra que a mídia nunca me disse se foi varrida pelo último tsunami que assolou a região)

"Qualé, grande imprensa?", pergunta perplexo um certo público que já devia estar acostumado com uma mídia má, que nunca lhe foi propriamente simpática. É verdade que ela sempre foi capilarmente ocupada aqui, acolá, nas redações e até mesmo frente às câmeras, por pessoas pertencentes a esse público. Ele sabe, entretanto, que manuais de redação, treinamentos, e especialmente editores e demissões, existem para tornar tudo isso realmente desimportante. Qualé!? Perplexos??

"Qualé, grande imprensa?" insiste esse público. Logo ele, que hoje ele lê o Estadão e O Globo porque "pelo menos não é má mídia", reclama que a mídia é má? É mentira que ninguém lia a Folha de São Paulo e o Jornal do Brasil durante o período de nossa redemocratização e que nunca aderiu publicamente a um de seus editoriais. E, convenhamos, não foi exatamente a qualidade do jornalismo dos Mesquita e dos Marinho que melhorou. E ademais, a qualidade de nossos quadros dirigentes e midiáticos, em perspectiva comparada, nem é tão sofrível assim, pelo menos para quem passou os anos 90 nos Estados Unidos. Não nem tão supreendente assim: a nossa mídia é mais independente e menos censurada do que a deles. Qualé!? Perplexos??

Há má mídia e mídia má. Esse público sabe disso há algum tempo. Vamos parar de brincar de conspiração e voltar a fazer política. Esse público importa para essa política que queremos fazer. E essa mídia também importa. Esse público vlê mídia má se ela não for má mídia. E vlê péssima mídia se fôr mídia do bem.

Aidim am ahe ama idima. Amidi ama eh a mami dia

A vitória dos guerreiros democratas nas eleições americanas

"Não conheço exemplo mais triste e mais completo de insulto à razão humana que a bárbara e patética ilusão dos [americanos] a respeito do princípio do "amigo ou inimigo", pois o que é sério não é a guerra, e sim a paz. A guerra e tudo quanto com ela se relaciona está presa à rede demoníaca do jogo. Só superando essa primária relação amigo-inimigo, a humanidade atingirá uma dignidade superior. A concepção de 'seriedade' dos [americanos] leva-nos muito simplesmente de volta ao nível do selvagem" (adaptação de trecho de Homo Ludens, de Johan Huizinga, 1938).

Como lembrou Jânio de Freitas hoje, e sempre me lembrava o colega Cepik, quem faz guerra por lá é democrata, pelo menos era assim até o início da dinastia dos Arbustos.

Quarta-feira, Novembro 08, 2006

A Importância do Chifre na Construção da Cultura Ocidental

Certo dia, os dois filhos do rei de Tróia resolveram fazer uma visita de cortesia a um dos homens mais poderosos da época: Menelau, rei de Esparta. Chegando lá foram recebidos como reis (até aí tudo bem, pois eram príncipes). Tiveram uma recepção calorosa, com eventos, jantares, apresentações à sociedade espartana, e farras daquelas de perder a caixa-preta.

O único problema é que Menelau era casado com Helena, uma baita loira que, além de um monumento de mulher, era da pá virada. Mas como era a mulher do rei, ninguém mexia com ela. Ninguém até chegarem os troianos, pois o mais novo, que se chamava Páris, a primeira coisa que fez dar aquela espiada de cima a baixo que deixou a moça nua até nos olhos. E o pior: foi prontamente correspondido. O destino armava ali uma encrenca de proporções homéricas.

Quando se cruzavam nos corredores do palácio, Páris que era um sujeito muito galante, abordava Helena com sutileza:

_ Mas que saúde, hein...

Ao ouvir isso, Helena, que percebia seu sistema endócrino em ebulição, retrucava animada:

_ Mas o que é isso? Eu sou mulher casada!

E Páris, com a elegância de sempre:

_ Casado não é capado, ora essa.

Ao que Helena, com um sorriso oculto na alma, replicava:

_ Olha o respeito!

E a coisa caminhou de tal maneira que logo estavam os dois botando a juripoca pra piar pelos recônditos do palácio. A lambança pegou fogo de tal maneira, que os amantes traçaram planos e acabaram fazendo a maior presepada com Menelau. No dia da partida dos Troianos, Helena arrumou uma matula e se pirulitou junto com Páris. Claro que o tempo fechou quando o rei acordou e não viu a mulher.

Menelau, que era corno mas não era manso, ficou uma arara. Queria ir pro pau a todo custo. E reivindicou um antigo tratado grego que obrigava às cidades da Hélade a se ajudarem no caso de ofensa a qualquer uma delas. Os reis todos tentaram abafar o problema, “ih, mulher tem em todo canto”, “mas era uma vadia”, “não vale a pena”, e outras argumentações igualmente argutas. Mas Menelau não queria conversa e aliou-se a seu irmão Agamenom, uma espécie de Bornhausen da época, que nutria um desejo antigo de passar com o trator por cima de Tróia, porque era uma cidade muito rica, que começava a incomodar com sua prosperidade, que proporcionaria um butim espetacular e também porque ele queria se livrar daquela raça por uns 300 anos. As sacanagens de Helena e Páris eram um pretexto incontestável para um sujeito com o caráter notoriamente duvidoso como ele posar de líder moral e, por conseqüência, chefe militar, que acabou se tornando.

A invasão e a guerra dos gregos contra Tróia durou 11 anos. Tróia foi arrasada. Milhares de mortos dos dois lados. Mesmo vitoriosos, muitos gregos perderam o rumo e as viagens de volta para casa duraram mais 20 anos. Uma série de tragédias se abateu sobre vários dos guerreiros gregos. Agamenon, por exemplo, foi morto pela própria esposa e o amante dela, assim que pisou de volta em casa. Ulisses teve que promover uma chacina contra as dezenas de pretendentes de sua esposa, que lhe haviam invadido o lar.

No fim das contas a guerra e seus desdobramentos serviram de tema para Homero escrever a Ilíada e a Odisséia, dois dos grandes fundamentos da cultura ocidental. Ou seja, se não fosse a traição de Helena, esses fundamentos não existiram. Sem eles não existiria a cultura grega antiga. Sem a cultura grega, o que seria do Império Romano? Sem Império Romano não haveria cristianismo. Sem cristianismo não haveria Idade Média, Igreja, Absolutismo, Iluminismo nem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. E sem Direitos Humanos este texto dificilmente versaria sobre questões espirituais ou culturais. Seria mais provavelmente sobre a melhor estratégia de invadir e saquear o apartamento do vizinho e, em caso de sucesso, brindar o resultado da empreitada em seu crânio.

Assim, o que salva o crânio desse vizinho é, em última instância, o aplique com que Helena adornou a testa de Menelau. Não fosse o furor uterino da bela rainha de Esparta e o nosso vizinho estaria agora com as horas contadas.

Todo o universo que conhecemos como “Civilização Ocidental”, portanto, tem suas raízes num Chifre. Procedendo desta maneira, ao sabor da natureza, Helena forjou as bases do mundo ocidental e elevou o Chifre à condição de motor da história e de alicerce da cultura moderna.

Pessoa II

"Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra que é pensada
E a única vida que temos
É essa dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar."

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

"Nos mijam e dizem: Choveu!"

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

Não Vi e Não Gostei do:
Cirque du Soleil


Antes de tratar com minúcias sobre o espetáculo promovido pelo famoso Cirque du Soleil no Brasil, gostaria de começar esta coluna com a premissa básica e praticamente incontestável de que todo circo é uma merda. E como tal, variam em sua diversidade tão somente nas cores, densidades e adornos de material orgânico não digerido – como uma berlota de milho ou mesmo um caroço de laranja misturados ao cocô. Isso me leva a crer, sem constrangimentos, que a despeito de sua variedade sedutora, tanto no caso do circo como no caso da merda, quem não viu não perdeu nada.
Chego a indagar a mim mesmo: quem, qualquer que seja o tempo e espaço, já se divertiu verdadeiramente com um palhaço; surpreendeu-se com o mágico; sofreu com a contorcionista; temeu pelo trapezista ou tremeu com os animais? Tenho grande convicção de que, no íntimo de cada elemento da platéia, existe, por detrás da racionalidade do aplauso, uma mente psicologicamente condoída por um inexplicável sentimento de culpa que, no final das contas, procura redimir com palmas o débito social sentido em face dos indivíduos do circo.
Mas o Cirque du Soleil se coloca, inegavelmente, acima dos outros circos e, sobretudo, da própria instituição circo. Para sua trupe, se é que o termo não os ofende, o Cirque du Soleil representa um salto evolutivo de duzentos anos, pois que explicitamente avesso às motivações fundantes do bom e velho picadeiro do século dezenove, repleto de aberrações e animais exóticos. O circo clássico, desde então, cumpriu com sucesso a missão de saciar a curiosa morbidez humana e assim permaneceu até o surgimento do “Cirque” – cujo marketing consiste justamente na apresentação de um espetáculo asséptico e devidamente civilizado, capaz de despertar o interesse do afeminado e televisivo homem pós-moderno. Gloriosamente, enfim, a morbidez cedia lugar ao impreciso termo por nós chamado de “arte”.
Aproveitando o ensejo do tema “arte”, gostaria de convidá-los a uma breve pausa nas elocubrações sobre o Cirque e, bem rapidamente, tecer alguns comentários sobre este fabuloso gancho. Isto porque a arte, na forma como o conceito vem sendo empregado, não significa mais que o produto artesanal, imbuído de uma suposta criatividade, de pessoas acostumadas ao mundo capitalista pré-pronto que desfrutam sem questionar. O que não vem da loja, portanto, é arte, e artista, geralmente, todo aquele que, de uma forma ou de outra, não precisa trabalhar para sobreviver (mas não quer dar essa pinta). Não sei se vocês conhecem um bairro do Rio chamado Santa Teresa, mas... ah, deixa pra lá. Voltemos ao Cirque.
O caso é que o Cirque, ao refutar a presença do bizarro nas suas apresentações, não conseguiu ir muito além de um espetáculo politicamente correto e, por isso mesmo, extremamente chato. Como se, de repente, o surrealismo (que, no original francês sur real, significa sobre o real) fosse substituído pela pop art (que, no fim das contas, significa arte vendável) e, assim sendo, a realidade distorcida de um Salvador Dalí cedesse lugar à plasticidade pasteurizada e palatável de um Andy Warrol. Com isso, vimos a mulher barbada eslava perder seu posto para a jovenzinha carente do terceiro mundo, e, desta feita, não só aplaudimos tal iniciativa como, sobretudo, pagamos bem mais caro por ela.
Acontece que eu sou jovem, sou carente e sou do terceiro mundo. Tipos assim, como eu e a tal jovenzinha do Cirque, somos demasiadamente comuns e, porque não dizer, insossos, se comparados à obscura presença de uma mulher barbada não lusitana no palco. Por tudo isso e muito mais, estou certo de que o Cirque du Soleil, ao abandonar suas raízes, deixou para trás não só a essência do picadeiro clássico, mas, especialmente, perdeu de vista a própria noção do espetáculo e do entretenimento em sua forma mais lúdica e tipicamente humana. Eu nunca assisti o Cirque du Soleil, mas...
Na única vez em que fui a um circo em toda minha vida, lá pelos oito anos, detestei os palhaços; assumi que o mágico só podia ser um portador de déficit de atenção; achei a contorcionista enfadonha e, confesso, flertei com o desejo de ver esborrachado no chão o prepotente trapezista – para, logo em seguida, ser devorado pelo leão magro fujão.
Contudo, não saí do picadeiro sem aquele encanto típico da lona e, confesso, por mais contraditório que pareça, fui embora maravilhado com ela: as instalações não confiáveis, a falta de salubridade, as aberrações humanas, tudo, enfim, de precário, exerceu sobre mim um fascínio tão forte que, até hoje, perdura romantizado em minha memória afetiva. E eu, que odeio circo, vou fazer o que no Soleil sem os anões, as mulheres barbadas, os portadores de doenças degenerativas, o número do artista cego, surdo, mudo e tetraplégico, o feto-marionete que conta piadas de duplo-sentido e o atirador de facas bêbado seis vezes viúvo?
Tudo o que posso dizer sobre o Cirque du Soleil, de forma curta e grossa, é que NÃO VI E NÃO GOSTEI. Em todo o caso, se você é do tipo “ver para crer”, os ingressos mais populares do espetáculo estão disponíveis por módicos 150 reais e podem ser adquiridos no site www.cirquedesoleil.com .
Aviso
Conclamo todos aqueles que “viram e gostaram” a replicarem meus argumentos. Vivemos numa era democrática e, assim sendo, o pior que pode acontecer é a deturpação do seu depoimento. Afinal, como dizia o falido, “liberdade é uma calça jeans velha e desbotada”. Qualquer coisa para além disso, como nos mostra o fenômeno da assadura, não passa de balela norteamericana ou, pior, discurso do movimento estudantil. Em caso de discordância, por favor, procurem meu advogado rico – pois no próximo mês, felizmente, minha secretária estará comprometida com uma série de sevícias sexuais necessárias para a consolidação de seu mais novo aumento salarial.
Cordialmente,
Nestor Loureiro.

O Papel da Mídia no Processo Eleitoral


Entendo que esse é o assunto do momento e que deve se tornar um tema recorrente. Depois do papelão que parte da mídia teve no processo eleitoral, agora vemos alguns jornalistas entrando numas de perplexidade: “Mas como? Essa raiva do PT, por quê? De onde tiraram isso?”

Ou seja, estão tentanto inverter o debate atribuindo ao PT um suposto sectarismo ou, quem sabe, motivações obscuras, para acusar a mídia que, coitada, estava apenas cumprindo o seu dever.

A questão não diz respeito ao PT, nem a qualquer partido em especial, mas ao fato de que o jornalismo enquanto instituição mudou radicalmente. A idéia de imparcialidade foi soterrada pela realidade de que os grandes grupos de comunicação são empresas, que visam lucros, que têm donos e esses donos têm interesses no jogo político. E resolveram que frescuras como “imparcialidade”, “eqüidistância”, “isenção”, entre outros atributos não fazem mais sentido e não há mais razões para tomar essas bobagens como fundamentos do jornalismo dessas empresas.

Não acho que se deva proibir nada, mas podemos deixar as coisas claras e colocar essas empresas no seu devido lugar. Em outras palavras, se elas têm o direito de emitir opiniões parciais e de estruturar o noticiário conforme lhe for conveniente, que isso fique claro para todo mundo. Não há mais noticiário isento.

No jornal Valor Econômico de hoje, 1 de novembro de 2006, Luiz Gonzaga Beluzzo (pagina A15) aborda o tema no artigo “As suaves truculências da liberdade”. A seguir, um trecho:

O filósofo Paul Virílio chegou a uma conclusão drástica: a mídia contemporânea é o único poder que tem a prerrogativa de editar suas próprias leis, ao mesmo tempo em que sustenta a pretensão de não se submeter a nenhuma outra. A justificativa para tal procedimento trafega entre o cinismo e a treva: uma vez afetada a liberdade de imprensa, todas as liberdades estarão em perigo. Cinismo, diz ele, porque esta reivindicação agressiva trata de negar o óbvio: os meios de divulgação de formação de opinião vêm se concentrando, de forma brutal, no mundo
inteiro, nas mãos de grandes empresas.


Longa vida à Carta Capital!